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Geral Mundo reorganizado

A reorganização do cenário Internacional no pós guerra como fator para o entendimento do atual conflito Rússia-Ucrânia

Para entendermos a atual situação bélica na Europa é essencial remontarmos à reorganização do cenário mundial no pós guerra.

24/03/2022 às 07h55
Por: Gideone Rosa Fonte: FLE/Goiás Press
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Foto: Divulgação/Editorial
Foto: Divulgação/Editorial

Por Márcio Florêncio Nunes Cambraia

Ao final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) houve a reversão das alianças, com os países do Eixo, a Alemanha, a Itália e o Japão passando a alinhar-se com a Aliança vitoriosa. Ao fim da guerra foi criada a ONU, cujo Conselho de Segurança compõe-se dos países vencedores, o Reino Unido, a França, os Estados Unidos, a China e a Rússia, que tem poder de veto.

Os países derrotados beneficiaram-se de maciça ajuda econômica dos Estados Unidos, por meio do plano Marshall. Paralelamente, estava se verificando paulatina expansão do comunismo, a princípio em países onde a URSS havia combatido o nazismo, mas desdobrando-se também na Europa Ocidental por meio do apoio soviético a partidos comunistas como os da França e da Itália. Aos poucos, países do Leste europeu foram entrando na zona de influência soviética. Formou-se a cortina de ferro, conforme a designação do primeiro ministro britânico Winston Churchill.

Para contrarrestar o espraiamento do comunismo formou-se a doutrina da contenção, o "containment", da qual um dos autores foi o diplomata americano George Kenan, especialista em política soviética. O mundo dividia-se em dois blocos antagônicos, dois campos opostos, um liderado pelos Estados Unidos e o outro pela União Soviética. Esses campos opunham-se ferrenhamente nos domínios ideológico, estratégico, econômico, tecnológico e de prestígio mundial. As exigências de alinhamento e de lealdade das potencias líderes em relação aos componentes de cada bloco eram extremamente rígidas pois, de acordo com a Teoria dos Jogos, tratava-se em um jogo de soma zero, no qual o ganho de um lado correspondia direta e simetricamente a perda de outro. Ou seja, os componentes de cada campo tinham sua capacidade de manobra extremamente reduzida. Dotados de armas nucleares, os EUA e a URSS não chegaram a se enfrentar diretamente em termos militares, mas o faziam por meio de terceiros países, em situação que deu origem à expressão Guerra Fria. Foi desse período a criação da OTAN e do Pacto de Varsóvia.

Embora com alguns períodos de distensão, a Guerra Fria prolongou-se até a derrocada da União Soviética em 1989. Seguiu-se época extremamente difícil para a Rússia, sucessora da URSS. Foi um período de hegemonia norte americana. Embora tenha perdido seu objetivo de conter a URSS, a OTAN continuou a receber adesões de países do Leste Europeu, em busca de proteção. Esses países procuraram também se aproximar da União Europeia, onde obteriam apoio econômico e acesso à liberdade de mercado.

Em outra vertente, a China realizou enormes progressos econômicos e tecnológicos nas últimas três décadas e tem modernizado e reforçado suas forças armadas. Suas relações com a Rússia foram problemáticas nas décadas de 1960 e 1970, mas as duas potencias tem estado próxima desde então. Recentemente, antes da invasão da Ucrânia, a China reafirmou aliança com a Rússia, de quem se comprometeu a comprar mais gás e petróleo. Poderá também apoiar a Rússia na questão dos fortes e bem direcionadas sanções ocidentais na atual crise. No entanto, a China, como ascende ao status de superpotência, não pretende se envolver decisivamente, pois não lhe interessa um cenário internacional conturbado.

A Rússia tem tido como objetivo recuperar a posição que correspondia à antiga União Soviética no concerto das nações e considera inaceitável que a Ucrânia venha a participar da OTAN e se decidiu pela invasão. Atualmente, a Rússia enfrenta sanções que a tem isolado e atingido sua economia, mas permanece firmemente decidida a continuar a luta contra a Ucrânia. Considera que a acessão da Ucrânia à Aliança Atlântica seria um risco maior para sua segurança do que as desvantagens de enfrentar as sanções e o isolamento.

Assim, vê-se claramente como a reorganização da estrutura de poder mundial no pós guerra tem reflexos na invasão da Ucrânia pela Rússia.

O autor

Márcio Florêncio Nunes Cambraia, embaixador e especialista da Fundação da Liberdade Econômica

Sobre a FLE

A Fundação da Liberdade Econômica (FLE) é um centro de pensamento, produção de conhecimento e formação de lideranças políticas. É baseada nos pilares da defesa do liberalismo econômico e do conservadorismo como forma de gestão. Criada em 2018, a entidade defende fomentar o crescimento econômico, dando oportunidades a todos. Nesse sentido, investe em programas para a formação acadêmica, como centro de pensamento e desenvolvimento de ideias. Ao mesmo tempo, atua como instituição de treinamento para capacitar brasileiros ao debate e à disputa política.

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