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Geral Guerra na Ucrânia

Ucrânia, um país perto do coração selvagem

Em momentos de crise como esse, aprende-se com a sofrida experiência a que estão sendo submetidos os ucranianos.

09/03/2022 às 10h22
Por: Gideone Rosa Fonte: Mackenzie/GP
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Foto: Divulgação
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Por Elton Duarte Batalha

A invasão do território da Ucrânia pela Rússia, o sofrimento imposto aos ucranianos pela guerra e algumas das características observadas no conflito permitem a reflexão sobre o momento social e político vivido pelo planeta atualmente. De modo cruel, outras partes do mundo podem aprender algumas coisas com os movimentos já realizados envolvendo as partes conflagradas. Constata-se que a realidade política contemporânea é marcada pela ascensão de um trinômio cuja síntese pode ser explosiva a depender do fim a que se destina: nacionalismo, populismo e tecnologia.

A exacerbação do sentimento nacionalista, especialmente se instigado em um ambiente marcado pelo ressentimento presente em um país que, no passado, foi extremamente poderoso, como é o caso da Rússia, pode levar a cenários caóticos. Após a queda do Muro de Berlim e o desaparecimento da União Soviética, os russos passaram por crises econômicas (em especial no fim dos anos 90) e sensível perda de importância no cenário político mundial. O surgimento de Putin em tal cenário, afirmando o papel central a ser cumprido pelo país no planeta, reacendeu o ânimo nacional. Os eventos históricos ocorridos após a Segunda Guerra Mundial demonstram como é perigosa a existência de uma liderança que saiba manipular uma população com autoestima abalada. Além disso, note-se que o crescimento do nacionalismo é característica do mundo atual em decorrência da busca de identidade pelas sociedades, envolvidas no processo de globalização. Nesse contexto, diversos conflitos, dentro ou fora do território, podem eclodir na tentativa de afirmação identitária.

O populismo, outrossim, é fenômeno cada vez mais presente no contexto político mundial. Um líder que se coloque como porta-voz da população, com pouco apreço por instituições típicas da democracia representativa, e que paute suas ações em um inimigo externo, suposto motivo de perigo ou aflição para a comunidade que diz defender, é figura que existe de modo evidente em diversos continentes, como notado especialmente nesse século, embora esteja presente na política há muito tempo. Na Rússia, Putin lida com as instituições de forma bastante peculiar para manter a roupagem democrática em um corpo autocrático que dirige, como presidente ou primeiro-ministro, há mais de duas décadas.

A tecnologia, por sua vez, está ocupando papel relevantíssimo na crise ucraniana no que toca à edificação da imagem de algumas das pessoas envolvidas no conflito e na difusão de versões sobre as motivações das atitudes do adversário. A tática da desinformação, presente desde priscas eras nos mais variados conflitos ocorridos na história humana, foi potencializada com o uso da internet e das redes sociais, instrumentos que aumentaram enormemente a amplitude e velocidade de disseminação de informações, nem sempre condizentes com a realidade. A quantidade massiva de dados e a reverberação de determinadas opiniões faz com que se lembre da conhecida frase de infame figura histórica que preconizava que uma mentira muito repetida tornava-se verdade. O panorama descrito, aliás, reforça a importância da distinção entre a exposição de um argumento, embasado em séria reflexão, e a mera emissão de opinião, produzida a partir de dados espalhados pela estratégia desinformativa.

Em momentos de crise como esse, aprende-se com a sofrida experiência a que estão sendo submetidos os ucranianos. O nacionalismo, o populismo e a tecnologia, quando combinados, podem dar origem a uma crise de contornos ainda obscuros. A banalidade do mal, tão bem explicitada na obra de Hannah Arendt, ainda está presente na humanidade e não foi expurgada em Nuremberg, como se pode perceber mais uma vez. Espera-se que o trágico evento histórico localizado no território ucraniano deixe lições para outros países acerca do perigo trazido pela utilização do sentimento nacionalista por líderes populistas com o auxílio da tecnologia, especialmente para nações que vivenciarão eleições em breve, como é o caso do Brasil. Afinal, a chegada ao poder de Vladimir Putin ocorreu de forma democrática e nenhum país está livre da possibilidade de experimentar a corrosão de suas instituições como observado na terra de Tolstói e Dostoiévski. Por fim, que sirva de inspiração à população da Ucrânia a frase que consta na obra “Perto do coração selvagem”, de Clarice Lispector, nascida naquelas terras e naturalizada brasileira: “Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome”. Assim como a protagonista da obra, a luta dos ucranianos envolve mais que a busca por liberdade: é demanda por respeito aos direitos humanos fundamentais e à soberania de um país.

O autor

Elton Duarte Batalha - Professor de Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Advogado. Doutor em Direito pela USP.

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