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Economia Vacas em lactação

Como o estresse de manejo pode afetar as vacas no período de transição?

Situações de estresse de manejo são bem comuns dentro de uma propriedade leiteira, mas muitas vezes podem passar despercebidas.

29/04/2021 10h28
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Por: Gideone Rosa Fonte: AlfaPress
Nathaly Ana Carpinelli (foto) é Zootecnista, UFPel Ms. Produção Animal, SDSU e Coordenadora Comercial, Nutricorp
Nathaly Ana Carpinelli (foto) é Zootecnista, UFPel Ms. Produção Animal, SDSU e Coordenadora Comercial, Nutricorp

Por Nathaly Ana Carpinelli 

Zootecnista, UFPel 

Ms. Produção Animal, SDSU 

Coordenadora Comercial, Nutricorp 

O período de transição em vacas leiteiras é compreendido entre as 3 semanas pré e pós-parto, caracterizado por ser uma das fases mais importantes do ciclo de lactação. Durante o terço final da gestação e início da lactação muitas alterações metabólicas e fisiológicas acontecem, devido ao aumento da demanda energética para o final do desenvolvimento fetal e, posteriormente, para produção de colostro e leite. 

Em contrapartida, neste mesmo período de alta demanda energética, observa-se uma diminuição no consumo de matéria seca (CMS) dos animais. Durante os 14 dias finais de gestação, vacas de primeira e segunda lactação apresentam uma redução de 25% no CMS, enquanto que o CMS reduz em até 52% para vacas de terceira ou mais lactações (Grummer et al., 2004). O reflexo dessa diminuição no CMS se dá principalmente no pós-parto recente, onde a vaca entra em uma condição fisiológica denominada balanço energético negativo (BEN). O mecanismo fisiológico que provoca a queda no CMS ainda não é bem entendido, entretanto, a redução do tamanho do rúmen e a alta circulação de estrógeno (hormônio esteróide) são fatores envolvidos na diminuição do CMS (Grummer et al., 2004). 

O BEN ocorre porque as vacas estão ingerindo menos energia do que elas realmente precisam, ou seja, estão comendo menos. Durante esta condição, a vaca mobiliza ácidos graxos armazenados no tecido adiposo para suprir a alta demanda energética e manter seu metabolismo ativo. Entretanto, períodos prolongados e intensos de BEN podem desencadear o aumento exacerbado de ácidos graxos não esterificados (AGNE) e corpos cetônicos (beta-hidroxibutirato – BHBA) na circulação sanguínea, que predispõem os animais a doenças metabólicas, comprometendo sua produção e reprodução subsequentes. 

Em uma revisão recente, Trevisi e Minuti (2018) relataram que além do BEN, vacas no período de transição também podem ser caracterizadas como animais imunocomprometidos, pois têm uma alta probabilidade de experimentar eventos que desafiam seu sistema imunológico. Durante o pré-parto, as vacas tendem a reduzir a produção de células de defesa e concentração de imunoglobulinas no plasma, que poderá afetar a resposta inflamatória desses animais. No pós-parto imediato, a incidência de doenças metabólicas, como mastite, cetose, retenção de placenta, metrite, hipocalcemia e deslocamento de abomaso, podem contribuir para a disfunção imunológica. 

Além das mudanças metabólicas e fisiológicas, os animais também passam por situações de estresse durante o período de transição. Por definição, o estresse pode ser caracterizado como qualquer situação que tira o animal de sua zona de conforto (homeostase; Collier et al., 2017). Durante a sua vida produtiva, as vacas leiteiras são submetidas à várias formas de estresse, tais como fatores ambientais (variações de temperatura), sociais (mudança de ambiente/lotes/sistemas de ordenha, hierarquia dos animais) e de manejo (desmame, mochação casqueamento). A resposta a essas situações de estresse, pode ser aguda ou crônica. A fase aguda é caracterizada por mudanças comportamentais, como vocalização, defecação e inquietação. Já a fase crônica pode desencadear uma resposta inflamatória indesejável, causando o aumentando de cortisol e síntese de proteínas de fase aguda (haptoglobina) no plasma, aumento da temperatura corporal e mobilização de tecidos corporais (hepático, muscular e adiposo). Em termos práticos, significa que a vaca está gastando a energia que seria utilizada para a produção de leite e crescimento, por exemplo, para combater o estresse.

Situações de estresse de manejo são bem comuns dentro de uma propriedade leiteira, mas muitas vezes podem passar despercebidas. Um exemplo é a novilha, sendo uma das categorias mais difíceis para adaptação em novos ambientes e mais vulnerável a situações de estresse. Isso acontece porque esse animal esteve submetido a várias condições de estresse durante um curto período de sua vida produtiva, causado inicialmente pelo desmame e mochação, seguido por várias trocas de ambiente/lotes até o início da sua lactação. No caso das vacas, a mudança de lote/ambiente ainda é considerada uma situação de manejo bastante estressante, em virtude do comportamento de dominância dos animais que interferem diretamente no CMS. 

No período de transição, tanto vacas quanto novilhas, sofrem com o estresse de manejo causado principalmente pela mudança de ambiente/lotes em torno de 30 dias antes do parto e, no caso das vacas a secagem 60 dias antes do parto. Você consegue imaginar quanto o estresse pode afetar os animais durante esse período? O efeito do estresse de manejo poderá ser refletido em um BEN mais intenso, maior risco de incidência de doenças metabólicas, diminuição na qualidade do colostro, juntamente com efeitos negativos na produção, reprodução e aclimatação deste animal na fase de lactação. Em termos práticos, isso poderá aumentar os custos da propriedade dada a maior ocorrência e, consequentemente, o tratamento de doenças no pós-parto imediato, menor transferência de imunoglobulinas para os bezerros, seguido pela diminuição na produção de leite e em um maior número de dias em aberto desse animal na fase de lactação. 

Levando em consideração uma situação hipotética que uma vaca ou novilha tenha uma produção média de leite esperada para 40 L/leite/dia no pós-parto. Supondo que esse animal foi submetido a situações de estresse causada por exemplo, pela mudança ambiente/lotes durante o pré-parto e que esse estresse possa diminuir em torno de 3% a produção de leite na primeira semana pós parto (Phillips & Rind, 2001). Nessa situação, essa perda seria em torno de 1,2 L/leite/dia e 8,4 L/leite/semana. Se esse efeito perdurar até 30d pós-parto, o animal chega a perder 36 L/leite. Isso somente em leite! Mas se esse mesmo animal apresentar sintomas de retenção de placenta ou cetose, por exemplo, a perda do produtor será ainda maior em virtude dos gastos com o tratamento.  

Em resumo, podemos considerar que o estresse de manejo durante o período de transição, pode afetar ainda mais a saúde e produtividade dos animais. Algumas estratégias podem ser utilizadas para minimizar os efeitos negativos do estresse, como por exemplo: 

Realizar somente o manejo necessário com animais no pré-parto

Minimizar a troca de lotes, para evitar efeitos de dominância entre os animais 

Se possível, separar novilhas de vacas no pré-parto e pós-parto recente

Se possível, realizar um lote pós-parto (cerca de 30 dias) para melhor aclimatação dos animais

Acompanhar a incidência de doenças no pós-parto recente

Acompanhar o CMS dos animais no pré e pós-parto

Adotar práticas de bem estar animal 

Investir em novas tecnologias para redução de estresse, tais como o SecureCattle®

A autora:

Nathaly Ana Carpinelli (foto) é Zootecnista, UFPel Ms. Produção Animal, SDSU e Coordenadora Comercial, Nutricorp 

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